Trechos do livro CONSPIRAÇÃO NA BABILÔNIA


1. Labaredas na Babilônia



Lá pelas tantas, Ev avistou no horizonte um brilho que parecia fogo. No silêncio escuro da noite, faíscas eram lançadas contra o fundo escuro do céu. Aos poucos estas faíscas foram transformando-se em labaredas, e era possível escutar o crepitar do fogo mesmo de longe. O fogo vinha da margem direita, ou seja, estava na margem oposta à margem em que estava Ev. E para surpresa dele, foi possível distinguir, a estas alturas, que vinha do armazém de madeira.


Tratava-se de um armazém que abrigava toda a madeira essencial da Babilônia. A Babilônia era semidesértica, muito pobre em árvores, toda a madeira destinada às construções e mesmo a madeira necessária ao exército ou à construção de naves ficava protegida ali. Era comprada de países ricos em vegetação, como Urartu (1), Hattusa (2), a Média, a Cítia (3), a Fenícia, entre outras terras.


O lugar era perfeito para uma fogueira gigantesca. Já clareava o dia, e à medida que o sol nascia no horizonte, mostrava a imponente e opulenta Babel. O sol já nascia queimando, sol de verão na Babilônia, que ardia a quarenta graus. E aos poucos o brilho do fogaréu, que por instantes havia iluminado a cidade de noite, cedia espaço à luminosidade do sol. Mas não sem se fazer presente, um imenso fogaréu que quase competia em altura com a Torre. Seria uma cena deslumbrante, se não fosse trágica

(1) Armênia de hoje.

(2) Terra dos Hititas, no atual nordeste da Turquia.

(3) Hoje parte do sul da Rússia.




2. Ev enfrenta a soberba dos egípcios na busca por elucidar um assassinato



Enquanto ele inquiria os oficiais, Ev entrevistava os egípcios. Começou por Hophra:


“Hophra, pode me dizer para onde foi ontem à noite, logo em seguida ao jantar?”

“Fui direto para meus aposentos com minha esposa Djehuti”, respondeu ele com cara de repugnância.

“Há alguém que possa confirmar esta afirmação?”

“Ora que impertinência, principezinho. A terra do Egito nada deve a Babel.”

“Não se trata disso, Hophra. Todos devem uma satisfação, pois há crimes sérios ocorrendo por aqui e temos o direito de saber, independente de nossas divergências políticas.”

“Não que lhe deva isso, principezinho, mas Meryhathor veio falar comigo antes que nos acostássemos, já estávamos dentro do quarto.”


O ódio dos egípcios era inegável e indisfarçável. Mesmo assim Ev teria que continuar perguntando-lhes coisas.


“Faz alguma ideia de quem poderia ter matado Nev?”

“Não tenho a menor ideia nem quero ter”, respondeu Hophra em tom agressivo e simplesmente levantou-se, virou as costas e retirou-se. Fosse como fosse, a inveja dos egípcios frente à superioridade bélica dos babilônios era muito óbvia.


Ev resolveu continuar com outras pessoas. Foi falar com Semenkare, que disse não saber de nada. Também afirmou ter ido direto dormir, apenas falando com Meryhathor no caminho. Semenkare era menos agressivo e mais dissimulado. Mas tampouco se poderia dizer se o que estava dizendo era verdade. Melhor seria confrontar essas afirmações com o que Meryhathor teria a dizer. E rápido, antes que se falassem.


Seria mesmo muito mais adequado que Ev falasse com Meryhathor, pois esta função não poderia caber a Samarat sob nenhum propósito.


Chamou Meryhathor, que veio com uma cara de indignação tão grande ou maior que a de Hophra.


“Meryhathor, desculpe-me a interferência, mas sou obrigado a lhe fazer perguntas.”

“Pois faça-as.”

“Para onde foi ontem, logo após o jantar, antes de ir dormir?”

“Por que não pergunta à sua querida irmã?”

“Porque saíram do jantar em momentos diferentes, você saiu muito antes dela. Pode responder minha pergunta, por favor?”

“Fui aos meus aposentos para dormir, ora. Não fico passeando por aí com desconhecidos, como faz sua querida irmã.”


Ev teve que engolir esta. Continuou:


“Não encontrou ninguém no caminho?”

“Sim, agora que mencionou, encontrei sim. Fui despedir-me de Semenkare, em primeiro lugar, depois fui dizer boa noite a Hophra e Djehuti, que já estavam em seu quarto.”


Pronto! Estava confirmado o álibi dos dois.


“Tem alguma ideia de quem possa ter matado Nev, Meryhathor?”

“Tenho inúmeras ideias, mas não vou dividi-las com você.”

“Agradeço sua colaboração”, disse Ev em tom irônico e despediu-se.



Para saber mais, acesse a página do livro Conspiração na Babilônia.