Trecho do livro QUEM DÁ AS CARTAS?


No meio do jogo, uma divergência religiosa começa a acirrar as tensões


“O mundo está indo para o caminho do mal, mas já está escrito nas escrituras sábias e sagradas, para quem sabe ler os sinais do tempo, que o grande salvador da humanidade está chegando e há de separar o joio do trigo.”


Nesta altura o Arthur interveio:


“Ah Bia, deixa esse assunto para lá vai! Não é todo mundo que tem essa interpretação.”


Como eu gosto do Arthur, não canso de admirá-lo pela praticidade, por seu sucesso, pela maneira como consegue se safar das situações e driblar a Bia. Acho que ele mereceria estar com uma pessoa melhor. Fora que o acho muito atraente.


Ela insistiu ainda: “Não é mesmo. Só para quem está preparado o mestre chega.”


Ela dizia isso com uma convicção cega de um religioso fanático. Quem disse que essas religiões alternativas não podem levar ao fanatismo? Já havia algum tempo a Bia estava cega por religião. Eu não queria contrariar, pois esse é um terreno perigoso, mas não pude me conter de dizer apenas o seguinte:


“Bom Bia, isto tem um pouco de tom de pregação religiosa. Você não pode impor estas ideias como sendo a coisa mais natural do mundo, verdade suprema. Tem gente que não pensa assim. Não pode impor desse jeito, ninguém é obrigado a acreditar.”


Ela respondeu:


“Ninguém é obrigado a acreditar, mas vai pagar o preço de não acreditar, cada um responde pelos seus atos, inclusive de incredulidade e infidelidade.”


Eu nem acreditava no tom de imposição, de dona da verdade, um tom inclusive desafiador e impertinente, só podia vir de uma pessoa altamente desequilibrada emocionalmente e carente ao extremo. Foi difícil conter-me ali.


“É, contra fanatismo religioso não tem argumento mesmo. Nem vou continuar na conversa porque é perda de tempo, estou falando no vazio. É como argumentar com rato de bíblia. A gente conversa e argumenta e a pessoa só retribui versículo de bíblia. Não leva a nada.”