A TERCEIRA PORTA (Trechos do livro inédito)



BRUNO VÊ LUCAS PELA PRIMEIRA VEZ


Os quatro permaneceram um tempo conversando quando subitamente André chamou a atenção em voz bem alta, saindo da rodinha e apontando ostensivamente:


“Pessoal, olha para a entrada daqui desta pista. Olha lá bem rápido, vai! Presta atenção no monumento que vai entrar e passar por aqui!”


Todos olharam.


Realmente havia um cara no umbral, e deveria ser bem alto, pelo que parecia pelas proporções em relação à porta. O corpo estava virado para frente e a cabeça para trás, como se esperasse alguém. Então esse rapaz olhou para frente, desceu aqueles poucos degraus que havia entre onde estava e o piso do próximo ambiente e começou a percorrer o largo corredor que margeava a pista e conduzia ao bar. Um caminhar lento e soberbo. O tronco nu, a camiseta dependurada na calça, na cintura.


À medida que passava, podia-se vê-lo melhor. Um homem bem alto, extremamente musculoso, costas, peito, braços, ventre, bunda, coxas. Para completar o conjunto, um rosto escandalosamente bonito. Seu conjunto traduzia um aspecto muito viril. Ele caminhou impávido, magistral, poderoso, atravessando o corredor da pista rumo ao bar, onde pareceu pedir alguma bebida.


O assombro foi geral. Os quatro desfizeram o círculo em que estavam e viraram-se em direção ao bar, estupefatos.


“Que monumento é esse?”, perguntou Renato em tom sério, como era de sua natureza. Seu rosto traduzia quase um ar de reprovação.


“É um deus!”, disse Henrique, encolhendo-se mais ainda que de costume enquanto dava um passo atrás e se encostava à parede.


“Um colosso de mármore!”, exclamou Bruno, paralisado com a mão sobre a boca.


Parecia que a beleza do moço o remetia a seus problemas de auto-aceitação.


“Já vi ele aqui”, explicou André, mais agitado ainda do que o normal. Apontava para o rapaz no bar ao mesmo tempo em que quase pulava em seu lugar, dando passos adiante e atrás. “Ele é, de longe, o cara mais lindo, gostoso e perfeito deste lugar. Léguas adiante de todos os outros. O que ele está fazendo aqui? Errou de balada? Isto não é para ele.”


“Realmente, pensando bem, está muito acima da média da balada”, concordou Renato. “O que será que o traz aqui? Será que ele está entediado dos locais que frequenta e veio conhecer alguma coisa nova?”


Neste momento, o magnífico rapaz, que tinha pedido uma cerveja, virou-se para frente, ficando de costas para o bar, e começou a sondar o ambiente, virando lentamente a cabeça para um e outro lado e percorrendo o recinto com o olhar. Seus movimentos e gestos eram lentos.


“Ah, talvez ele queira dar uma de doido, tem curiosidade de saber como é ficar com um ursinho”, deduziu Henrique. “Se bem que um cara desses ficaria com “O URSO”, os caras que estão aqui não chegam aos pés dele.”


Logo em seguida, o jovem estupendo e sedutor foi para uma das mesinhas ao final da pista, colocou a lata de cerveja ali em cima, virou-se para o centro do ambiente e ficou observando. Sua expressão era sempre a mesma.


Em pé, calmo e sem se mover muito, tinha ar sério, mas não agressivo. Também não parecia arrogante. Um olhar de quem está sondando. Não vago, mas aguçado. Um olhar indecifrável, misterioso. Após alguns minutos, foi-se em outra direção e deixou a interrogação.



MARCELO DEMONSTRA NÃO ACEITAR LUCAS


“Pois é, Marcelo, o Lucas agora está se aproximando mais das pessoas. Veja, conversei bastante com ele, e ele não é nada daquilo viu?”


“Não estou gostando nada disso. Então ele se chama Lucas, não é? Eu soube dos três rapazes que conversaram com ele no fumódromo sábado passado. E está se enturmando? Aquela ratazana não me engana não, não adianta fazer teatro, ele não me desce. É tudo falso.”


“Não é, Marcelo, você precisava ter visto. Como você não viu, não acredita.”

“Mas por que cargas d’água ele resolveu se enturmar só agora? E como ele está fazendo isso?”



UM EVENTO SOBRENATURAL E INEXPLICÁVEL ASSOLA A BALADA


Nesta hora de tão intenso júbilo, o som começou a diminuir. O volume baixou, a imagem dos vídeos nos telões foi obscurecendo aos poucos e logo não havia mais nada. Todos estavam imersos no mais profundo silêncio, só havia o barulho de vozes e vaias dos frequentadores a princípio indignados, acreditando que fosse alguma falha no som.


Mas logo as luzes também começaram a desvanecer lentamente. Primeiro adquirindo um tom amarelado mais fraco, depois esmaecendo mais e mais, até desaparecerem por completo. E os clientes do local se viram imersos nas mais profundas trevas silenciosas. Ainda acreditavam que fosse apenas uma falha elétrica, até que começasse a soprar lentamente uma brisa. Uma brisa que foi se transformando em vento, vento forte e frio, gélido.


Um murmúrio longínquo dava à situação um elemento soturno, que só piorou com o acréscimo de um odor putrefato, misturado com madeira queimada. E aquele momento estranhamente lúgubre deu lugar a algo mais aterrador e tétrico quando foi possível identificar que os sussurros eram na verdade gritos abafados.


O que seria aquilo?


Em meio a esta situação, onde não era possível enxergar quase nada, surgiram duas formas indistintas, levemente luminosas e extremamente rápidas que se aceleravam vertiginosamente velozes e pareciam perseguir-se uma à outra, uma levemente azulada e uma levemente avermelhada. Disparavam raios uma em direção à outra para logo depois desaparecerem, arrancando gritos de terror dos frequentadores.


Elas lançavam centelhas muito ligeiras uma contra a outra, mas não conseguiam se atingir. Ora aceleravam mais seu percurso, ora diminuíam a marcha e assemelhavam-se mais a vultos humanos distorcidos, diáfanos. Passavam por entre os presentes, escondiam-se no escuro, e de repente surgiam do nada, por detrás de alguém, causando espavento generalizado.


O clima era medonho, aterrador, pavoroso, sombrio. A situação não deve ter durado mais que dez minutos, as pessoas já estavam se movimentando para sair correndo quando subitamente tudo voltou ao normal, a luz, o som, a temperatura.


Ainda assim o susto havia sido grande e houve uma corrida aos caixas para deixar o local. Porém, por mais que todos quisessem ir embora logo, dada a quantidade de gente que lá havia, demoraram muito para conseguir sair. Mas agora sem outro motivo para susto, pois nada mais aconteceu.


Naquela noite, poucos conseguiram dormir em paz, mas no domingo seria apenas mais uma história para contar.


Durante a semana que se seguiu, a administração tentou entrar em contato com os frequentadores para comunicar que tudo tinha se tratado de um mal funcionamento do ar condicionado, que começou a operar tão fortemente a ponto de sugar a energia de todo o resto, gerando ainda aquela brisa com odor peculiar.