O CISNE (Trechos do livro inédito)



Alexandre avista Fábio


Um dos atributos de Alexandre que o fazia destoar um pouco dos outros gays é que era um grande fã do esporte. Suas modalidades favoritas eram o tênis e a natação.


No dia seguinte, já próximo das dez da manhã, Alexandre esperava a quadra vagar para jogar uma partida. Havia reservado horário para a quadra. O que o surpreendeu, porém, foi que entre os jogadores que estavam disputando a partida no horário anterior ao seu estava o rapagão musculoso que ele apreciava. Parecia incrível, toda hora o encontrava. Bem, afinal, o estabelecimento não era uma cidade, havia um número limitado de pessoas, isso iria acontecer frequentemente.


Ao final da partida, seu admirado tirou a camiseta, pois estava pingando de suor, e veio para os bancos pegar suas coisas. Alexandre não conseguiu resistir. Olhou muito intensamente para o torso grande e bem trabalhado de seu desejado, apreciando os peitorais bem desenvolvidos, ombros largos, braços fortes e barriga definida. Tão hipnotizado que estava que não percebeu que seu objeto de desejo já havia percebido a mirada fixa, e não estava gostando nem um pouco. Quando Alexandre se deu conta, Fábio o olhava com uma expressão muito brava, intimidadora e ameaçadora. Alexandre desviou o olhar imediatamente e não mais virou a cabeça para aquele lado.



O Conflito


Quando Alexandre avistou quem estava vindo em sua direção, já era tarde demais. Fez menção de levantar-se e ir embora, mas não dava mais tempo. O grandão já estava do seu lado. Começou a falar em voz alta, grossa e agressiva:


“Amigo, está havendo algum problema? Você não está gostando de alguma coisa?”


“Não, de jeito nenhum, não há problema algum!”


“Então por que fica me olhando? Está me achando com cara de engraçado? Eu sou palhaço?”


“Não, não é nada disso!”


“Então você não foi com a minha cara, é isso?”


“Não, por favor, não é nada disso!”


“Então me diga agora o que está acontecendo para você ficar me encarando!”


Alexandre fez menção de ir embora, como se estivesse fugindo de um imenso problema. Fábio não deixou. Com o braço esquerdo agarrou-o pela gola da malha, no pescoço, e o braço direito estava flexionado, cotovelo para cima, como se estivesse pronto a desferir um murro feio em Alexandre. Estava pronto a descer o braço com muita força no rapaz.


Alexandre ficou apavorado. Começou a chorar e suplicar:


“Por favor, você não pode me bater, você é muito mais forte do que eu, vai me destruir, vai me machucar muito, é muita covardia!”


“Então me diga o que está acontecendo!”


“Não dá, você não vai gostar de saber.”


“Diga-me agora ou eu te arrebento!”


“Não posso, você vai ficar muito bravo! Desculpe, não vai mais acontecer, eu prometo!”


Neste ponto Alexandre já chorava mais forte, soluçando, sua súplica causava compaixão.


“Vai dizer sim, enquanto não disser não vamos resolver isto!”


“Bem, acho que não tenho saída né?”


“Não.”


Alexandre suspirou fundo, tomou coragem, sabendo que a bronca ia ser forte, mas teve de dizer.


“Eu te achei um homem muito bonito. Te achei lindo mesmo, muito atraente, foi isso.”


Fábio fez uma cara de profunda indignação e neste momento quase desferiu o murro que estava engatilhado. Depois continuou:


“Eu deveria ter sabido. Você é viado né?”


“Sim, sou!”


“Eu sou espada velho, vamos parar com essa palhaçada já. Não gostei dessa história.”


“Desculpe. Não vai acontecer mais.”


“De agora em diante não quero mais ver sua cara nunca mais, entendeu?”


“Tá.”


“Tá não. Sim senhor. Repita!”


“Sim senhor.”


“Se nos encontrarmos por aí você desvia, compreendido?”


“Tá bom.”


“Tá bom não, sim senhor!”


“Sim senhor!” Repetia Alexandre em voz trêmula, morrendo de medo.


“Se cruzar o olhar, você abaixa a cabeça e passa reto, entendeu?”


“Sim senhor.”


“E agora chega desse assunto que eu já enjoei. Suma da minha frente e não quero mais saber da sua existência. VAZA! AGORA! SOME!”


“Sim senhor.”



A Remissão


Alexandre começou a apressar o passo, iniciando uma corrida. Quando Fábio percebeu isso começou a correr também atrás dele, estavam a pouco mais de um metro de distância. Alexandre acelerou, mas Fábio foi mais ágil e conseguiu segurar a mão esquerda de Alexandre, que já começava a chorar.


“Por favor, me deixa, por favor!”


“Calma rapaz, calma, está tudo ok hoje.”


Alexandre fazia força para escapar e Fábio o segurava com mais força, até que Alexandre escorregou e caiu de joelhos do chão. Foi aí que seu desespero piorou. Começou a clamar por piedade e seu choro aumentou:


“Me deixa em paz por favor, por favor! Eu juro que não vou mais te incomodar!”


E o desalento tomou conta de Alexandre. Ele era a própria imagem do desespero e prostração. Com os joelhos no chão, o braço esquerdo fortemente preso por Fábio, ele soltou seu corpo e sua voz parecia desaparecer-se na desesperança, esmaecendo e quase ficando inaudível, à medida que suplicava de forma já quase descrente:


“Por favor cara, me solta, me deixa ir, eu te peço, por favor, eu imploro, por favor, por favor, por favor!”


E a voz deu lugar ao choro desconsolado.


Fábio puxou-o para cima, colocou-o de pé, abraçando-o fortemente pelas costas, de forma que o torso de Fábio tocava as costas de Alexandre, que chorava copiosamente. Ele não tinha nem forças para permanecer de pé, era Fábio que o segurava, enquanto dizia:


“Tudo bem carinha, tudo bem. Hoje é na paz, sem violência, pode crer. Deixa eu conversar um pouquinho com você, por favor!”


O desespero de Alexandre não cedia, o que em muito emocionou Fábio, ao perceber o tamanho da monstruosidade que tinha feito com o rapaz. Começou a esfregar seu rosto na parte superior das costas e na nuca de Alexandre e dizer:


“Carinha, fica calmo por favor, não vou te agredir hoje, vim por outra razão. Queria te pedir desculpas cara, por favor, sou eu quem está pedindo, peço suas desculpas, me perdoa!”


E neste momento a voz do próprio Fábio começou a ficar embargada, lágrimas saíam dos seus olhos e a voz tremia:


“Carinha, por favor, me desculpa, conversa um pouco comigo, eu que estou implorando, por favor, me desculpa, eu estou muito arrependido!”


A essa altura o choro de Alexandre já havia sedado, dando lugar a uma certa estupefação. Ele escutava o choro de Fábio e não lhe parecia falseado ou mentiroso. Fábio segurava o peito de Alexandre com o braço esquerdo enquanto sua mão direita acariciava os cabelos de Alexandre, à medida que lhe dava beijos no pescoço. No silêncio que se fez, agora só se escutava um leve choro de Fábio, entremeado por um suave soluçar. E esta situação se manteve por alguns instantes.


Então foi a vez de Alexandre falar. Recobrou sua voz e seu fôlego e perguntou:


“Você não poderia me soltar?”


“Se eu soltar você vai fugir.”


“Não vou não.”


“Vai sim, eu sei. Não queria mais que tivesse medo de mim, eu fui um imbecil, quero me recompor com você. Podemos sentar na sua mesa um pouquinho e a gente conversa?”


“Ok, eu topo, mas sem me sacanear.”


“Juro que não. Mas me dá sua mão porque eu não quero que você fuja.”


Fábio tomou a mão esquerda de Alexandre, segurando-a com sua mão direita, e caminharam até a mesa, onde se sentaram lado a lado. Os dois enxugaram as lágrimas de seus rostos e Fábio começou...