VIRUS (Trechos do livro inédito)



TRECHO 1


Um corpo na sala de sequência


Um grito excruciante foi ouvido de dentro do IPBCM. Eram pouco mais de 07:00h e Fabiana tinha acabado de entrar no instituto. Logo vieram acudir. Quem estava perto – o bibliotecário que acabava de chegar, uma médica da Pesquisa Clínica e dois seguranças.


No chão da sala de sequência, que era onde ficavam os sequenciadores, estava Leandro, deitado de barriga para baixo, com uma pequena poça de sangue ao lado do corpo. Sua pele, especialmente a do rosto, estava arroxeada. Havia sinais de luta.

Os seguranças pediram para que todos saíssem e chamaram a polícia, que chegou imediatamente. Assim que chegaram, constataram que Leandro estava mesmo morto, declararam que seria provavelmente um homicídio e isolaram a cena do crime. Logo chegou a polícia científica e começou seu trabalho, tirando fotos e coletando evidências. Obviamente naquele dia ninguém trabalharia no instituto. Talvez mesmo em dias subsequentes.


O que foi achado, a princípio, foi um frasco de clorofórmio em cima da bancada. Havia um pequeno ferimento na parte de trás do pescoço. O sangue devia provir dali. Alguns armários e gavetas abertas e só. Na sala de sequência só isso.

As câmeras internas do corredor e da sala de sequência também estavam cobertas por fita isolante preta.


Na sala ao lado, porém, havia uma cena estranha. O perito veio pedir a alguns dos integrantes do instituto que o acompanhassem, sem tocar em nada, para que identificassem de que se tratava. Foi Michelle quem imediatamente comunicou, não sem uma imensa lástima, de que se tratava aquela cena. O tanque de nitrogênio líquido, na sala de amostras, estava aberto, e quase todos os tubos que continham as amostras estavam sobre a bancada, descongelados. Este tanque continha as amostras e materiais do experimento de resistência ao HIV, aquele que vinha sendo processado havia 23 meses. Tudo perdido. Justo da sala que o grupo de Microbiologia tinha conseguido que fosse trancada a chave.



TRECHO 2


O Profiler Guilherme analisa o corpo de delito


Capa do livro VIRUS

Guilherme foi imediatamente ao local, com sua máquina fotográfica e seu material. Assim que chegou já começou seu trabalho. O olhar de um profiler pega coisas que o de um perito comum não pega.


Logo ao entrar na sala onde havia ocorrido o óbito, sentiu seu pé escorregar em algo. Levantou o pé e viu que alguma coisa tinha colado na sola de seu sapato. Abaixou e descolou da sola do sapato uma pequena bolinha. Parecia uma pequena bolinha, mas na verdade era uma esfera vermelha com um furinho no meio.


Olhou em torno, ali perto de onde estava, e viu mais duas iguais àquela. O que seria aquilo? Pareciam miçangas de um colar ou pulseira... Onde estaria o resto?


Procurou bastante, pelo chão, em outras salas, procurou minuciosamente e não achou nada. Então subitamente ocorreu-lhe que a pessoa poderia ter querido se desfazer daquelas miçangas. Foi direto ao lixo da sala do óbito e vasculhou-o. Seria difícil achar coisas tão pequenas em um lixo, procurou minuciosamente, mas mesmo assim nada encontrou.


Uma coisa, porém, chamou-lhe a atenção de súbito. Havia uma luva, dessas de látex de laboratório, com um nó dado na altura do punho. Ele abriu a luva e... lá estavam elas, as outras miçangas, muitas, junto com um fio que deveria ser o fio da bijuteria. O fio estava rompido. Pelo comprimento mostrava que o artefato era uma pulseira.


Tudo aquilo indicava pressa. Provavelmente alguém havia rompido esta pulseira e queria livrar-se da prova apressadamente. Reuniu tudo como pode, pensou rápido, mas não de forma perfeita, escondeu tudo dentro de uma luva (mas descuidou de três bolinhas que permaneceram no chão) atou a luva e jogou no lixo.


Guilherme reuniu essas evidências e guardou-as dentro de um plástico para análise posterior. Continuou olhando para o chão. “Na pressa”, pensava ele “as coisas caem no chão. Muitas evidências de crime permanecem no chão porque as pessoas não olham para baixo”.


Realmente, logo viu também outra coisa interessante: um pedaço minúsculo de tecido branco rasgado. Pegou-o e olhou-o de perto: havia umas costuras com fio branco também rasgado, restinhos de fio. Logo viu também outros poucos pedaços de fio branco rompidos, próximos dali, no chão. Coletou estes elementos também em um outro plástico.


Como estava abaixado no chão, acabou vendo uma coisa que talvez houvesse passado despercebida do resto da polícia: um tubo, debaixo de um dos armários. Tentou alcançá-lo com a mão protegida pela luva, mas não conseguia. O tubo devia ter rolado para lá. Por isso ninguém se dera conta dele, estava muito escondido.


Saindo da sala de óbito, explorando o corredor que seria o caminho para a sala das amostras sabotadas, seus olhos de águia perceberam mais um detalhe estranho no chão: duas estruturas curiosas, dois dentículos de algum material que parecia plástico. Dentículos minúsculos, foi difícil enxergá-los. Mais material para sua posterior análise. Analisou bem o corredor, a sala com as amostras, fotografou, mas nada mais encontrou.



TRECHO 3


O profiler Guilherme, junto com os cientistas do instituto, acham os protocolos que provam confecção de material biológico classe 4


Durante sua reunião noturna, porém, Guilherme atentou para a parte da estante da qual haviam sido retirados os livros que Alexandre havia colocado dentro da arca, para cobrir a chave e escondê-la. Ao fazer isso, lembrou-se do que tinha observado anteriormente.


Olhou de novo: alguns livros da parte de cima da estante estavam excepcionalmente limpos em comparação com os outros ao lado e embaixo, muito empoeirados. Uns três livros que estavam limpos demais para aquela área. Justo ali em cima, onde ninguém mexe, onde se esperaria que houvesse mais pó, havia esse grupinho de livros muito mais limpos que os outros.


Guilherme comentou isto com os outros e pegou uma cadeira da mesa do centro. Subiu na cadeira e tomou em suas mãos estes livros. Eram livros de capas antigas como os outros, mas estavam recortados por dentro. O miolo deles havia sido retirado, e dentro de três deles achou mais três caderninhos como os que haviam achado na noite passada.


“O Alexandre não devia saber destes caderninhos aqui, pois de outra forma teria tentado escondê-los também”. Pensou Guilherme.


Guilherme pegou os caderninhos, desceu da cadeira, mostrou a Michelle e perguntou-lhe:


“O que são estes caderninhos? Outros protocolos”?


Michelle tomou os cadernos na mão e disse:


“Sim, Guilherme, são protocolos”.


Estes eram bem maiores e continham as inscrições R-Ebola-32, HCELV-25 e HCEP-EI. “Amanhã vamos ver de que se trata”!


Foram dormir com a nítida sensação de tarefa cumprida quanto ao vírus L-HBV-14, e muito ansiosos para ver de que se tratavam estes novos protocolos que haviam encontrado. A viagem de volta a São Paulo teria de ser adiada por mais um dia.